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terça-feira, 5 de maio de 2009

Contra el Cristal ...

Miguel Ríos
Contra el Cristal / No Sabes Como Sufrí

Hispavox H-484
1969
Single

1. Contra el Cristal (Juan Pardo)
2. No Sabes Como Sufrí (María D. Ostiz)

Miguel Ríos: voz
Waldo de los Ríos: arranjos, direcção de orquestra

De certa forma, Miguel Ríos está para Espanha assim como José Cid está para Portugal: cada um é, no seu país, a figura tutelar do rock nacional. No entanto, há óbvias diferenças entre ambos, e uma delas é o facto de, apesar de Ríos ser dois anos mais novo que Cid (nasceu em 1944), ter começado a gravar logo em 1962, com o nome artístico de Mike Ríos (Cid só chegaria aos discos em 1967, com o Quarteto 1111). Em 1969, ano deste single, Miguel Ríos estava já marcado pelo espírito psicadélico que orientaria parte da sua carreira (e que esteve depois na origem de três excelentes álbuns de rock progressivo, na década de 1970, o último deles, "Al Andalus", ricamente imbuído de toques árabes), e estava à beira de gravar o "Hino da Alegria", de Beethoven, que se transformaria num sucesso dentro e fora de portas. "Contra el Cristal" é um belo tema de Juan Pardo, ex-Brincos e ex-Juan & Junior, e que mostra bem a garra de Ríos. No lado B surge um tema mais contemplativo, da autoria da cantautora María Ostiz e gravado originalmente por esta em 1967.

sábado, 25 de abril de 2009

Nossas Canções/1

Nuno Filipe
Nossas Canções/1

Sonoplay SON 100.001
1969
EP

1. Cantiga da Manhã (Maria Teresa Horta / Nuno Filipe)
2. Canção à Maneira de Saudade, Conforme Poema de El-Rei D. Diniz (Maria Teresa Horta / Nuno Filipe)
3. Roteiro de Lisboa (Maria Teresa Horta / Nuno Filipe)
4. As Barcas (Maria Teresa Horta / Nuno Filipe)

Nuno Filipe: voz
Maria Teresa Horta: voz
Conjunto Universitário Álamos: acompanhamento
Rui Ressurreição: arranjos, direcção

Terceiro disco de Nuno Filipe, este é um trabalho notável dentro do rock português (com aproximações ao psicadelismo e prenunciando já algum hard rock, em "As Barcas") da década de 1960 pela destreza e talento com que combinou excelentes poemas de Maria Teresa Horta com a música inspirada de Nuno Filipe. Na altura, gerou controvérsia a letra de "Cantiga da Manhã", mas passados 40 anos bem precisamos de lavar "os olhos com a sua lã". Ou, como se pergunta em "Canção à Maneira de Saudade, Conforme Poema de El-Rei D. Diniz": "Notícias aqui do meu país / novas daquilo que se não diz?"

segunda-feira, 9 de março de 2009

10000 Lépés

Omega
10000 Lépés

Qualiton LPX 17400
1969
LP

1. Petróleumlámpa (Anna Adamis / Gábor Presser)
2. Gyöngyhajú Lány (Anna Adamis / Gábor Presser)
3. Tüzvihar (Anna Adamis / György Molnár)
4. Udvari Bolond Kenyere (Anna Adamis / Gábor Presser)
5. Kérgeskezü Favágok (József Laux / Gábor Presser)
6. Tékozló Fiúk (Anna Adamis / Gábor Presser)
7. 10000 Lépés (Anna Adamis / Gábor Presser)
8. Az 1958-as Boogie-Woogie Klubban (Anna Adamis / Gábor Presser)
9. Spanyolgitár Legenda (Anna Adamis / Tamas Mihály)
10. Félbeszakadt Koncert (Anna Adamis / János Kóbor)

Laszlo Benkő: teclas, trompete, vozes
János Kobor: voz
József Laux: bateria
Tamas Mihály: guitarra baixo
György Molnár: guitarra
Gábor Presser: teclas, vozes

Segundo álbum deste grupo (embora a estreia, no ano anterior, tivesse sido assinada como Omega Red Star), aqui se encontra um momento curioso de cruzamento entre o psicadelismo húngaro e o psicadelismo português por via de um festival japonês. Confusos? Com efeito, em 1970 começava no Japão o World Popular Song Festival, promovido pela Yamaha. Num ano em que Portugal optara por não participar no Festival da Eurovisão, Sérgio Borges (vencedor do Festival da Canção com "Onde Vais Rio Que Eu Canto") tem em terras orientais uma oportunidade de mostrar a canção ao mundo. No entanto, quaisquer aspirações cairam por terra logo na primeira semi-final, a 20 de Novembro de 1970, com esta a ser eliminada. Outra canção a ficar pelo caminho foi precisamente a participação da Hungria, da responsabilidade dos Omega, mas Sérgio Borges ouviu "The Girl with Pearls in Her Hair" e não ficou indiferente. Já em Portugal, grava uma versão da mesma com o Conjunto João Paulo, que, com o título encurtado para "Pearls in Her Hair", viria a ser o lado B do último disco de originais do grupo (single "Mar (Meu Pão, Casa, Pedra, Fome)", de 1972). E que versão! Toda a força da voz do cantor se mostra aqui bem patente, e os arranjos folk rock só fazem pensar no que se poderia ter ganho caso a Valentim de Carvalho tivesse apostado num LP de originais do Conjunto João Paulo nesta fase... Mas voltando aos Omega e ao seu segundo LP: ora é precisamente aqui que se encontra a versão original de "The Girl with Pearls in Her Hair, cantada em húngaro, com a designação "Gyöngyhajú Lány". Como parece querer dizer o título do álbum dos Omega ("10000 Lépés" pode traduzir-se por "10000 Passos"), um longo caminho percorreu esta canção até chegar a Portugal - mas a viagem valeu bem a pena!

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

A Peça

Pop Five Music Incorporated
A Peça
Orfeu XYZ 140
1969
LP

Prelúdio:
1a. Overtüre [Pop Five Music Incorporated]
Acto I (Soft):
1b. Jesus, Alegria dos Homens (Johann Sebastian Bach - arranjo: Pop Five Music Incorporated)
2. Blackbird (John Lennon - Paul McCartney)
3. To Love Somebody (Barry Gibb - Maurice Gibb)
Acto II (Crescendo):
4. Medicated Goo (Steve Winwood)
5. Proud Mary [John Fogerty]
6. Mess Around [Ahmet Ertegun]
Acto III (Climax):
7. Hush [Joe South]
8. Fire (Jimi Hendrix)
9. Sour Milk Sea (George Harrison)
10. C'Mon Down To My Boat [Wes Farrell - Jerry Goldstein]
Finale (Histerical):
11. Can I Get a Witness [Eddie Holland - Lamont Dozier - Brian Holland]

Paulo Godinho: voz, guitarra, órgão hammond, piano, interjeições
Pi Vareta: voz, guitarra, guitarra baixo
Tozé Brito: voz, guitarra, guitarra baixo, fuzz
David Ferreira: voz, guitarra, órgão Hammond, piano, percussões
Álvaro Azevedo: bateria, percussões

Este trabalho tem várias características que o tornam um disco marcante na música nacional. Em primeiro lugar, é um dos três únicos LP's de pop rock editados por um grupo português na década de 1960 e o primeiro de uma formação não sediada em Lisboa. Depois, foi uma aposta arriscada de um editor que sempre se pautou pela diferença - Arnaldo Trindade - este acto de lançar para o mercado um álbum de pop rock nitidamente afastado das canções mais triviais, ainda para mais de um grupo que até então só tinha em carteira dois EP's (situação idêntica à da Filarmónica Fraude, aliás, que assinou contrato com a Philips numa altura em que a editora pretendia deitar cartas no pop rock nacional). De destacar, também, a ambição do grupo em conceber o álbum como se de uma peça teatral se tratasse, com as respectivas partes bem delineadas, o que também ficou presente no próprio grafismo do álbum, da responsabilidade do fotógrafo (e então piloto desportivo) João Paulo Sottomayor. Em último lugar, três dos músicos aqui presentes seguiram depois carreiras musicais de reconhecido valor e importância: Alvaro Azevedo, nos Arte & Ofício e Trabalhadores do Comércio; Paulo Godinho, como baixista em vários trabalhos marcantes da década de 1970, hoje a morar no Japão; e Tozé Brito, que passaria logo de seguida para o Quarteto 1111 e que dispensa quaisquer outras apresentações. Em termos do reportório gravado, não há aqui lugar para originais, mas as versões de temas dos Beatles, dos Bee Gees, de Jimi Hendrix, dos Traffic ou de Marvin Gaye são criativas o suficiente para quase fazer esquecer isso mesmo. Por outro lado, foi graças a esta tarimba que os Pop Five chegariam ao excelente conjunto de seis singles editados entre 1970 e 1972, construindo um reportório próprio que os colocava acima da grande maioria dos grupos nacionais e ao nível das formações britânicas de então. Em CD, a totalidade deste álbum encontra-se no duplo "Odisseia - Obra Completa 1968-1972".

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Jess & James

Jess & James
Jess & James
Palette MPB S-3290
1969
LP

1. Straight Man (Scott Bradford - Wando Lam)
2. Mrs. Davis (Wando Lam - Scott Bradford)
3. Perdition Again (Wando Lam - Scott Bradford)
4. Lip Service (Wando Lam - Scott Bradford)
5. A Passing Car (Scott Bradford / Wando Lam - Scott Bradford)
6. She's a Woman (John Lennon - Paul McCartney)
7. Skathing (Stu Martin - Wando Lam - Scott Bradford)
8. James Stuff (Wando Lam - Tony Lam)

Tony Lam: voz, guitarra baixo
Wando Lam: voz, guitarra
Scott Bradford: teclas
Stu Martin: bateria

Liderados pelos irmãos Tony e Wando Lam (nascidos no Porto, mas emigrantes na Bélgica e na Holanda desde a adolescência), os Jess & James são um dos maiores casos de sucesso de portugueses no estrangeiro. Com efeito, desde o início do grupo, em 1967, que temas como "Nothing But Love", "The End of Me", "Move" ou "Something for Nothing" fazem uma mistura arrasadora de soul e pop a que era impossível resistir, conquistando várias pistas de dança europeias. Chegados a 1969 com dois LP's já na carteira (além da experiência como Free Pop Electronic Concept), este terceiro álbum, homónimo, traz sete novos temas originais e uma versão dos Beatles ("She's a Woman", de 1964). A sonoridade geral está já mais madura, sendo que o psicadelismo que surgia nos dois primeiros LP's está aqui bem diluído e transformado num cocktail pesado que roça por vezes o funk. Como curiosidade, refira-se que o grupo venceu o Prémio da Crítica no II Festival Internacional da Canção de Barcelona, em Outubro de 1969, com o tema "A Passing Car", deste LP - mas representando a Inglaterra!

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Epopeia

Filarmónica Fraude
Epopeia
Philips 841 407 PY
1969
LP

1. Epopeia (1ª Profecia) (António Pinho / Luís Linhares)
2. Na Ilha Virgem (António Pinho / Luís Linhares - sobre motivo popular)
3. Digo-Dai (António Avelar Pinho / Luís Linhares - sobre motivo popular)
4. Só Marinheiros e Escravos Se Afundam com a Nau (António Pinho / Luís Linhares)
5. Homenagem Póstuma (António Pinho / Luís Linhares - sobre motivo popular)
6. Por Vós (Desgostoso, Carrancudo e Magro) (António Pinho / Luís Linhares)
7. Centenário (António Pinho / Luís Linhares)
8. Sebastião Morreu! (António Pinho / Luís Linhares)
9. Epílogo (António Pinho / Luís Linhares)
10. Os Bem-Aventurados (António Pinho / Luís Linhares)
11. «25» (António Pinho / Luís Linhares)
12. 2.ª Profecia (Bandarra / Luís Linhares)

João José Brito: voz
António Antunes da Silva: voz, guitarra eléctrica, guitarra acústica
José João Parracho: voz, guitarra baixo
Luís Linhares: voz, órgão, piano
Júlio Patrocínio: voz, bateria
António Pinho: voz
Carlos Barata: voz
Zé da Cadela: bateria
Luís Moutinho: bateria
Jorge Machado: arranjos

[ficha técnica recolhida junto do grupo, uma vez que o LP não a contém]

Com produção de João Martins e de Luiz Villas-Boas e uma fabulosa capa de Lídia Martinez, "Epopeia" chegou ao mercado numa fase de mudanças na banda, em finais de 1969. Depois de dois brilhantes EP's, em que se atreveram a verter num cruzamento de folk e de pop rock o mal-estar português de uma forma inigualável, a possibilidade de gravar um álbum era algo que teriam de agarrar com unhas e dentes. De facto, este é o 3º LP de pop rock editado na década de 1960 em Portugal por um grupo nacional (depois das estreias do Conjunto João Paulo, em 1966, e dos Pop Five Music Incorporated, também de 1969), sendo que a discografia do género era feita maioritariamente em EP. Pegando na temática do Portugal das Descobertas e fazendo paralelismos mais ou menos subtis com o Portugal seu contemporâneo, composições como "Na Ilha Virgem", "Por Vós (Desgostoso, Carrancudo e Magro)" ou "Os Bem-Aventurados" mostravam que ser moderno podia (e devia) passar pela fusão das tradições. As letras de António Pinho (mais tarde na Banda do Casaco) eram já uma das pedras de toque do conjunto, sendo que apenas "2.ª Profecia" (com um começo a lembrar o melhor dark folk) não contava com texto seu mas sim do Bandarra, o "nosso" Nostradamus.